sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

de quem vê, e quase sente.

je me place dans la position de l'observateur qui, d'un point surélevé domine toute la scène.

Já é passado de uma da manhã, faz quase duas horas que o sono fez questão de prevalecer em seu corpo, mas, mesmo com todo o poder lhe concedido, o tratou com desprezo. Ele se bate na grande cama, procura uma posição confiável para o descanso, pois sabe que o amanhecer vem à sua janela como veio nas horas anteriores ao sono o imprevisto, mas conveniente encontro. O que ia se construindo e acomodando-se lentamente no merecido descanso, agora sofre um espasmo repentino. O cachorro late como nunca tinha feito antes, ninguém entende a agonia presente, as únicas pistas se revelarão junto ao sol. De toda forma, alguma agitação toma conta, e nem mesmo um observador conseguiria adentrar à uma mente entregue à inquietação, por isso tudo se deve aos detalhes para compreendermos:


O corpo pára e se concentra nos latidos, enquanto mil possibilidades são processadas. Mas o cão também cansa, a noite ainda é grande para aproveitar o sentido do descanso. Não fosse o estrondo vindo da rua, teria chance ele de ignorar o que parecia prenunciado. O barulho não veio só, seguiu-se um clarão já observado prontamente pelos olhos que despertaram e sentiam-se aplicados em fazer parte de fatos maiores que apenas um colchão e uma vontade. Ao se voltarem para o externo, os olhos perceberam a escuridão que ganhava alguns brilhos com faróis de automóveis, e, ao mesmo tempo, os olhos pediram algumas linhas e o corpo se fez em palavras. De súbito, as mãos alcançaram o livro na cabeceira e o que estava por vir, surpreendeu até mesmo os fios de cabelo já bagunçados pela movediça dança em busca do sono real:

Página 27, Eduardo Galeano, “Mulheres”.

A Noite/1

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.


Quando o corpo paralisou, a mente logo se impôs como a verdadeira força da cena. Sabia-se que a ultima semana não tinha levado embora toda a ansiedade vivida. As poucas palavras do texto fizeram um efeito estranho, esquivo, pela não habitualidade da situação. Por que as personagens vêm e vão? Bom, não foi difícil descobrir. Mas por que ele sente-se maduro ao desejar uma em especial? ...

Lamentou por oportunidades perdidas de ao menos fortificar a aproximação da incógnita. Ela não podia, tinha seus problemas e seus horários de sono não chegavam a um acordo. Nada deu muito certo, a ansiedade havia ganhado e nesse momento ela se pronunciava, pois, tudo estava em dobro: a velocidade, a intensidade, a crueza e o discernimento dos pensamentos se embaralhavam. Quisera o corpo que esse embaralho se fizesse como na mão de um mágico e ali surgisse a carta esperada para a próxima jogada. Mas não, nada parecia muito real, e tampouco fictício. No meio da algazarra, recordou-se de um artigo de uma revista de filosofia que deu nova vida às imagens do filme “Closer”. E aí duvidei uma vez mais se esse homem descoberto e todo torto na cama não acordaria de uma fantasia, apenas. Mas fez um esforço, e aqui de cima, consegui perceber.

Deixou penetrar em sua mente as palavras dela que só pode ouvir pelo telefone e sorriu. Não se iludiu, concentrou-se no que o som da voz representou para ele, e também, não sorriu inocente, já sabia dos problemas. Aplicou então ensinamentos da sua profissão: a história é toda ação do homem sobre o meio em que ele vive, suas ações definem o presente e projetam o futuro. Sim, ele pensou num futuro, porém não sentiu-se forte o suficiente, queria poder mais, queria clarear mais sobre sua única razão de ter perdido um pouco do sono. Sem mais delongas, logo dormiu, mas dormiu sem saber.