quarta-feira, 22 de março de 2017

Na feira, atrasado, comprando niilismo.


- Oi amigo, só temos agora as bacias, que estão 2 reais, fica à vontade.
- Ok. Acho que vou levar essa de uvas e essa aqui lotada de bananas, pode ser?
- Claro claro, vou colocar na sacola pra você.
- Não precisa, eu trouxe essa aqui.
- Ah, um amigo do meio ambiente!

***
 

(...) Na verdade, não sei se isso configura amizade. Talvez se eu já estivesse morto e minha massa enterrada de forma não prejudicial a terra ... Só tenho um costume simples de carregar uma sacola de algodão. Você sabe como é feito o algodão e como as fábricas desperdiçam grandes potenciais da matéria prima pra manter um padrão e uma textura que foi dita ser agradável ao nosso toque? Inclusive, o que foi pensado e vendido como grande solução à essas porcarias plásticas, só foi levado à cabo porque daria lucro indiretos para alavancar estratégias maiores de consumo. Entenda que existem campanhas de um 'capitalismo verde' que vão lhe desviar o foco de outras questões mais urgentes e importantes. Nada aqui é vendido para realmente beneficiar algo que não seja um egoísmo desenfreado que fecha as mentes em torno de pequenos contos irrisórios de felicidade, atrelados à dinheiro e ganância. Além disso, tem gente que coleciona sacolas de algodão, entende como isso não faz sentido? Entretanto, essa aqui, por exemplo, foi roubada. Eu peguei ela em outro continente, mas a gente viaja de avião, que derrama uma quantidade de combustível fóssil que nem imaginamos, somente pra irmos ao outro lado do mundo em algumas horas. Sabe, ausentar-se do trabalho e de manter essa economia bizarra girando é inaceitável às pessoas que decidem até quais serão os meios de transporte de todo mundo, com propagandas que nos tapam até a imaginação; é proibido até sonhar com outros meios de viver. Em todo o caso, eu percebi que a sacola estava sem uso, talvez por ter essas pequenas manchas e recuperei do ócio pra dar à ela uma função. Esse é um ato inimigo do capitalismo. Se quiser me chamar disso, eu ficaria mais lisonjeado, mesmo sabendo da insignificância que carrego. Mas (...)

***

- É - Levantei as sobrancelhas e contraí os lábios por um segundo, fingindo uma expressão neutra e olhando nos olhos do rapaz que atendeu - Um amigo.

sábado, 17 de dezembro de 2016

O Juicer, fazedor de sucos.

Não sei se posso falar apenas por mim, ou se incluo quem compartilha do sentimento de acordar cedo - mesmo sem um desejo racional, ou seja, essa prática difícil de se livrar - ou falo por todas as pessoas que já tiveram alguma experiência nisso em algum momento da vida. Acredito não ser polêmico em afirmar que os sábados pela manhã podem nos trazer outra vida, outro respiro. Eu não sei se são as memórias infantis de fazer atividades diferentes ou se há um equilíbrio entre pensar em descanso e a expectativa sobre ser um dia de inspiração social maior. Se puxarmos a mitologia e religiosidades, podemos ir mais longe.

Mas o fato é que acordo hoje - um dia como outro até a prova de sua inocência - com alguns pesares, um plano desfeito por forças que não poderia controlar, decisões a tomar em um segundo, blusas no meio de dezembro. Mas é sábado e uma voz em minha mente dizia baixinho: "Põe tudo tuas maçã no juicer".

Era uma voz agradável, mas deixei de lado, num bom lado, e me virei ao outro pra procurar na cabeceira da cama um livro. Eu estou concentrado sobre alguns aprendizados no que diz respeito à não fuga da compreensão total de problemas. Procurei um capítulo que me agradasse e encontrei durante o folhear, antes do início do capítulo 'Sobre a memória', um recado de quatro anos atrás que nunca tinha visto.

Sobre a memória pode-se dizer muito, eu já escrevi envolto em obsessões, em felicidades, em tristezas, com método histórico embaixo do braço, já fiz perguntas provocativas, já recebi respostas instigantes e já recebi um grande vazio. Mas o que li no capítulo trazia elementos novos e desafiadores - ou pelo menos a organização das palavras me deixaram essa sensação. O recado, por outro lado, começava pelo meu nome e dizia a pessoa para eu não me preocupar, que eu não tinha feito nada de errado à ela, mas precisava seguir a viagem programada.

"Maçãs no juicer, maçãs no juicer". Verdade, eu tinha várias maçãs. É engraçado supor coisas a respeito de como as pessoas lidam com livros e com maçãs ao mesmo tempo. As maçãs, eu ainda tinha várias, fui suprido por uma remessa das boas esses dias. Os livros, teve uma época que eu insistia em terminar um pra começar outro, mas depois abandonei essa besteira. Em 2012, o ano do recado encontrado, eu já lia esse, que além de denso espiritualmente, não é escrito em português e então, eu leio devagar, parando aos passos de encontrar no dicionário algumas dúvidas, que na verdade, residem mais nas reflexões do que no vocabulário.

Fiz o suco! É sábado e caramba, a parada é muito boa, é o melhor suco do mundo e era tudo que eu poderia desejar, ou o que a minha memória me diz nesse instante. Esse robozão, composto por várias partes de plástico, com cantinhos bem desenhados para termos um encaixe e funcionalidade satisfatória, o Juicer - do inglês: fazedor de suco - sempre me surpreende. Eu tomei quase num gole só e pensei que se eu mereço esse suco de maçã num sábado pela manhã, eu não devo ter feito nada errado mesmo.

Aí veio a louça. Você já lavou uma máquina dessas? (...) São quantos os erros na vida que não podemos consertar?

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Deixe que chova

Vocês também fazem algumas coisas calculando o tempo que vai levar, pensando em algum destino final, que seria o seu próprio tempo de descanso ou um simples encaixe para próximas tarefas?


Eu não sei, já tive épocas em que eu listava com caneta minhas obrigações diárias/semanais e sentia o maior prazer em riscá-las quando resolvia. Não que eu tenha perdido a prática, isso ainda me deixa um sentimento de dever cumprido ou algo que o valha, mas alguns dias são tão pesados que simplesmente não há o mínimo foco pra nada. Na verdade, não há uma boa explicação para a falta de organização, mas o fato é que, então, eu troco a lista por um tempo de silêncio deitado na cama ou sofá, até que as coisas se organizem na mente e que eu saiba que quando eu levantar, o foco vai estar lá e aí eu sei o que fazer. Você deve estar pensando: “Um tempo? bom, isso é relativo! Queria deitar por seis meses e aí eu descubro”. Pois é, mas o que ocorre é que estou falando de coisa de dez minutos, não pode ser muito mais. Ou poderia, mas aí teríamos que começar um novo texto sobre política, sociedade, cidades, trabalho e como tudo isso afeta nosso tempo e organização pessoal. O que vai ser, afinal, dessa introdução?



Eu tomei uma tempestade hoje, e o texto é só sobre isso. Entendeu? Eu não sei como aconteceu, pois, mesmo que seja difícil pôr em palavras, acreditem que eu tinha tudo programado. Mas aí uns dias atrás eu soube que precisaria pagar uma conta da viagem passada. Eu já tinha esquecido dessa e agora, acabei de lembrar de outra. Oitenta e sete reais pra um amigo, vou mandar mensagem avisando que não esqueci - Ok, avisado. Na viagem, deixamos cair um dinheiro coletivo e estamos pagando até agora essa brincadeira. Tinha outra conta, de uma passagem de ônibus que comprei num cartão de crédito de outro amigo. Eu não uso essa ferramenta acreditando me safar de umas roubadas, mas aí hora ou outra, me submeto do mesmo jeito; exatamente igual, ou pior, quem sabe. Mas bem, transferi, voltei pra casa e mandei o comprovante. Ao mesmo tempo abri um e-mail com o reaviso de débitos da luz. Não dei muita bola, uma hora eu iria deitar novamente naqueles dez minutinhos e aí lembraria, daria um jeito. E foi hoje, mas hoje foi alguns dias depois de eu raspar um carro que não me pertence e descobrir a conta que viria nisso. Hoje também foi alguns dias depois de perder bastante dinheiro a troco de driblar burocracias para poder continuar trabalhando - e pagando contas. Mas não pense em crise, pense que existem uns boletos e que o céu estava ficando muito escuro e o vento aumentando.



A lotérica perto de casa era perfeita pra minha conta de tempo, cálculo, cumprimento de tarefas e enfim, destino. O vento aumenta, três pessoas na minha frente. Tá tudo certo, mas, espera! “Cadê aquele senhor que fica sempre no caixa número três? Ele é muito ágil”. Tem pessoas que curtem mesmo fazer as coisas rapidinhas, eles mandam uns movimentos de mãos que desacreditaria qualquer futurista do século passado que vivia falando dos robôs fazendo absolutamente todas as tarefas dos humanos. Trinta segundos se passam, o vento aumenta e o céu fica ainda mais escuro, mas uma pessoa termina o atendimento, então tá tudo certo ainda. 

“Quero a mega sena hoje! Acumulou, é? Mas que belezinha!”. De trás, na fila, me sentindo pequeno, lanço um olhar que refletia tanto a realidade das ínfimas chances daquela pessoa ficar rica, como minha pobre inveja da posição dele no atendimento. Mas aí a pessoa, que nessa altura já me irritava, decide jogar em outros dois jogos! O tempo passando e eu começando a crer que talvez ele tenha alguma chance de ganhar, afinal. Outra pessoa é chamada no caixa um, serei o próximo. Já um pouco desesperado, tentando refazer contas do tempo dentro da minha cabeça, uma senhora entra com um guarda chuva virado ao avesso e fazendo algum comentário comum sobre o vento e água atacando de lado. Mas ok, eu escutei garoa, não deixava-me abater. As duas pessoas que estavam sendo atendidas saem juntas e tenho a oportunidade de escolher para onde vou. 

Obviamente, já tinha notado que a mulher do caixa um estava mais focada e pra que ir no dois, se o um está aberto? É a ordem do mundo, quem sou eu nesse momento pra desafiar?



Papéis em mãos, deixei eles retinhos pra passar rapidasso naquela fresta entre os dois vidros. Vocês já viram como sempre enrosca? Pois é sempre uma batalha difícil, mas não para quem estava perdendo a guerra do tempo e se preparou intensamente para aquele momento. Os papéis entraram rapidamente, sem nenhuma contenção. Já aviso que é débito, que pode somar tudo. “Ah, tem esse condomínio atrasado, preciso calcular aqui”. Sim, estava tudo atrasado! As contas, a vida. Porém, a calculadora é daquelas grandes, com teclas que não correm o risco do dedo acidentalmente bater em lugar não desejado e o resultado sai de imediato. Vai dar tempo, pensei. Mas faltava ainda outros boletos, quando por alguns segundos eu entrego-me ao pensamento de que “talvez eu tome uns pinguinhos, mas nada demais”. A esperança é mesmo a ultima que morre, já diria a sabedoria popular. 

E assim morreu. Começou a chuva de uma maneira muito intensa, com muitas rajadas de ventos que traziam água até 5m pra dentro da lotérica, contando com 1,40m da marquise. Não poderia acreditar e perdi completamente meu foco interno dos cálculos e de toda minha programação de chegar em casa seco, fechar as janelas, comer alguma coisa, sentar no sofá, ligar o computador, ler alguma besteira pra depois ver o que faria no resto do dia. O mundo caiu, que não consegui ficar quieto e desabafei com a mulher que me atendia. Ela não deu a mínima, eu entendo. Eu só falei sorrindo, numa mistura de tragédia e comédia exposta num semblante decepcionado que, achava que não iria me molhar hoje.



Apenas caminhei no caminho. Me molhei; bastante. Mas, deixe que chova.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Época de abacate


Confesso não ter um mapa ou um lembrete da minha cabeça para me colocar em sintonia com as épocas das frutas. É a época de eleição, eu me prestei ao serviço, já estava mesmo de todo perdido. Mas voltando ao princípio, sem jogo político, recebo um convite para buscar abacates. Estão em abundância, caindo aos montes. Antes do possível, uma árvore inacessível, completamente carregada, um sofrimento escusado: "não há o que possa ser feito, não serei acusado". Terei a minha chance. A guacamole sempre mágica ou um creme batido com melado de cana, já penso em sabores, em abrir a casca com jeito, em pequenos prazeres.

Bato palmas no portão e, em um segundo penso há quanto tempo não usava as mãos nessa função. Vem os cachorros pulando, gatos chegando e aceito um chá; é mais do que óbvio. Escutamos alguns discos, eu sou apresentado ao terreno, vaso a vaso, árvore a árvore. Um pote com terra da compostagem guarda mudas que descubro ganhar; tem até alho poró. Aceito então o pão integral e a torta de banana, passada do ponto apenas nas bordas, ali onde o sabor transborda. 

Comentamos política, citamos os rachados, os problemas comparados, olhamos nos olhos e sejamos sinceros: estampamos na cara nossas próprias falhas. Então abrimos alguns livros, transportamo-nos pro além, já penso em muitos alguéns e a tarde passa como horas que não pertencem a ninguém.
Despedimo-nos com sorrisos, afinal são verdades indiscutíveis, se estamos ainda vivos é pelos pequenos momentos incríveis.

O abacate eu acabei esquecendo. E é engraçado que continuo escrevendo pra exercitar a memória, pra não terminar mal a história. Mas eu esqueci; com o perdão das péssimas rimas, de toda forma, sorri.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Corrida Quarta


 Já não sei se os eventos ocorreram nessa sequencia. Estou ainda no final do dia, mas os sentidos podem me enganar, eu sei. Eu saí de casa correndo, mas reservei um tempo para uma ducha fria. Estava calor e seria meu antídoto pra ficar um tempo dentro de um carro sem ar condicionado, com direção pesada. Queixo duro, alguns dizem. Fui, demorou pra chegar. Cheguei. Achei uma vaga. Só preciso entrar, pegar uma caixa com vegetais orgânicos e voltar. Não vou pôr cartão. Não precisa, amigo, vou demorar 3 minutos. Entro, subo as escadas. Vejo uma guria de costas, acho que a estou reconhecendo. Será que é a guria que saí semana passada? Devo dizer um oi, certo? Não, mas estou sem cartão, preciso correr. Na volta eu me certifico e dou um oi. Ela vai me ver com as caixas na mão e perceber como estou apurado. Não vai ficar feio se eu praticamente passar correndo. Aqui está sua caixa. Obrigado. Saio numa passada rápida. Olha lá a guria. Tá com outro cara, tá beijando. Ah, não vejo problema, vou dizer oi. Ih, não é ela. Desço as escadas, Passos rápidos. Cheguei no carro. Que porra de bilhete é esse? Ah caralho, é uma multa. Amigo, a moça não deixa eu por cartão pelo lado de fora, senão te salvava dessa. Tudo bem, eu entendo. Cadê ela? Tá ali atrás do caminhão. Moça, eu fiquei três minutos fora, eu até tinha cartão, mas veja bem. Não posso fazer nada agora. Ok, eu entendo, tenha um bom dia. Preciso pegar também as castanhas. Estacionamento lotado. Ok, do outro lado da rua tem um conveniado, não preciso de cartão. Eita, que fila é essa? Crédito ou débito. Débito. Não lido com crédito. Volto pro carro, descobri uma passagem pelo meio da quadra. Ganhei tempo. Vamos lá, vou pegar essa rua hoje. Ih, tá ruim. Não, ruim é apelido. Meia hora pra andar quatro quarteirões. Olha as bicicletas me passando. Que inveja, quero a minha. Talvez eu só ande de bike e não faça mais nada. Eu gosto, realmente gosto. Será que consigo um outro emprego? Meu corpo aguentaria ser entregador de bike e depois trabalhar no emprego oficial? Bom, deixa pra lá. Via calma tá escrito na placa, mas eu estou desesperado. Eu não consigo sair daqui, to suando muito. O banho já era, preciso de outro. Atravesso o centro todo. Uma hora completa pra isso. Mais vegetais. Muitas folhas. R$39,80. R$50. R$11,20. Beleza, só falta ir no mercado. Odeio esse mercado. Estacionamento conveniado, atendente diz que meu carro ta bonitinho. Obrigado. Esse é antigo, né? É sim, amigo. Mas ta bem bonito mesmo. Obrigado, eu digo. Abro a porta para sair e já bato no carro vizinho. Tem uma pessoa dentro. Trocamos olhares. Até que foi amistoso. Lista mental. Quatro itens. Preciso de um carrinho para as compras. Prefiro aqueles de dois andares. Boa invenção isso aí. Pena que eles ficam presos um no outro e não consigo fazer com que eles desgrudem. Moço, quer ajuda? Sim, por favor, moça. Ela puxa forte pra trás, eu seguro e o carrinho sai. Muito obrigado. Acho ótimo pensar numa mulher segura para oferecer um favor que envolve trabalho braçal para um homem. Com tanta coisa retrógrada por aí. Temos esperança. Lembrei da pauta do facebook. Bela, recatada e dona do lar. A Veja é mesmo uma merda. Que atraso. Corre que dá. Carrinho cheio. Caixa. E amanhã, no feriado, qual horário de vocês? Ah, eu fico amanhã das quatro da tarde até meia noite. Na verdade, eu queria saber o horário do mercado. Mas tudo bem. Não quis corrigir. Fiz cara de simpático. Vamos descarregar. Caramba, olha o horário. Vai no pisca alerta mesmo. Chega de estacionar. Foda-se. Sabe o que? Vou deixar o carro em casa. Eu mereço andar de bike hoje. Chega dessa merda de automóvel. Quero vento na cara e sentir a perna trabalhar. Além disso, tô atrasado pro trabalho. Saio correndo. Bike no chão. Na primeira esquina um carro me fecha. Sem seta, sem nada. Jogo a bike pra cima da tartaruga. Pneu bate de lado. Furou. Merda. Vontade de abandonar a bicicleta aqui e sair correndo. Jamais. Mais fácil abandonar o emprego, o país, a família, a casa ou o carro no meio do mato do que deixar a bicicleta pra lá. Eu tenho sentimentos. Sempre digo isso. Acreditem. Chego ao trabalho. Tudo certo. Me sinto de pavio curto. Preciso cuidar. Irritabilidade não faz bem. Sorrisos ajudam. Oi amiga. Olha eu aqui te chamando de amiga. Ué, somos amigos, diz ela. Nem conheço a pessoa. Nome francês. Linda. Claramente adoro a energia dela. Pegou na minha mão e sorriu. Tchau amigo. Fiquei feliz de ser uma das ultimas clientes. Vamos embora. Empurrar bicicleta. Maconheiros na esquina. Legaliza logo essa porra. Caramba, pra quê marginalizar? Olha a caçamba. Estou sentindo. Vai ter coisa boa. Uma moldura. Mais uma pra coleção. Minha sala tá cheia. Prometo que vou arrumar. Mas prometer pra si mesmo? Aí é fácil ser corrupto. Sou corrupto todo dia. Não digo que tá certo. Talvez escreva um texto. Sim. O nome vai ser corrida quarta. Deveria abrir um vinho? Não, deixa para próxima. Terminarei e vou dormir. Parece que estou esquecendo de algo. Amanhã é outro dia. Depois eu lembro.

domingo, 23 de agosto de 2015

A falta de sentidos



Ninguém se atreve a explicar como começa. É quase como um mistério, você se arrisca em palpites que fazem pouco sentido ao mesmo tempo em que tenta construir na mente um caminho que lhe entregue uma resposta. Mas nada vem de graça. A verdade é que perder sentidos – pode supor e se apegar à pluralidade dessa frase – não faz sentido. O máximo que você consegue é imaginar o fim repetidamente; mas é doloroso de uma forma que, ou você acaba logo com isso ou se convence de uma saída sem glória alguma para continuar vivo: os enigmas permanecem e enganar-se a si mesmo monopoliza o pensamento. Pelo menos é o que parece. O problema dos monopólios, em geral, é que as aspirações, vontades e os poderes não existem para serem presos a um só laço ou a um só dono. A natureza é dura e ela joga contra na maior parte do tempo - não se engane com papo new hippie, a coisa é séria e te mata em dois segundos. Portanto, sempre haverão brechas e hora ou outra tudo vem contra; inclusive contra os monopólios de 'pensamentos auto-enganadores'. (…) Acho que agora fez sentido.


“Já não sabia contar os dias, mas lembrava da ultima insônia forte. Sabia que sentia-se cansado havia dias e que a ausência de reflexões em silêncio, que tanto lhe ajudam a se recompor, poderia lhe tirar um pouco mais do senso. Mas estava difícil supor que nada do que se mostra real teria forças para acabar com um momento de perda inevitável do que se chama sentir. Um olhar, uma ficha com o nome, um cumprimento ou um cartão de crédito que acusa o nome completo e nada convence. Todas as atividades no trabalho ficaram automáticas e mau executadas; perdeu o foco. Por horas esteve ao alcance da visão uma pessoa que lhe falava assuntos pessoais há dias, onde existia um comprometimento e sentia-se incrivelmente à vontade para expor falhas, derrotas, angústias. 

Aconteça o que acontecer, o que se vive de verdade é o que a vontade imprime em nossas horas de prazer. Deixar-se perder.

Não dormiu por estar assustado. O que acontece quando deita sozinho e se enxerga sozinho num mundo em que os olhos não sabem mais o que estão perdendo de enxergar? Não pensava em outra coisa. Pediu desculpas pela 'mancada'. Não se sabe ao certo que impressões deixou, mas alguma onda de atenção mútua correu pela madrugada e os sorrisos que vieram deixaram a noite acabar em sono tranquilo. Tranquilo até acordar e começar a duvidar de mais obviedades da natureza.

Dias se seguiam e nada de retomar a confiança. 'Quando confiei?'. Quem vira na rua hoje? Não sabia mais de nada, não queria mais arriscar dizer que tinha certeza. Queria ler textos de filosofia, mas já sabia que não tinha tempo – todo mundo já sabia disso, só fala disso o tempo todo. Então lembrou-se da melhor experiência em uma aula da faculdade. O professor desajeitado, cabeludo, óculos fundo de garrafa, desistente do 4º ano de medicina da USP para ser filósofo - e que desagradara ainda mais os pais colando folhas do 'Anti-Cristo' de Nietzsche nas paredes de casa - propôs colocar as mãos em três bacias com água em temperaturas diferentes até que o cérebro parasse de tentar entender o que era real e o que era outra coisa.

É como a correnteza de um rio. Acalmou-se”





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Permita-me lembrar

Antes do nosso próximo passo, permita-me lembrar: quando as contradições sobre aquilo que acreditamos nos engole facilmente sem resistência, não é que estamos amadurecendo; estamos morrendo.

Jovem até morrer ou Velho de Câncer?

You taught me how start a fire

A distancia criada por essas ruas barulhentas e ocupadas faz-me recordar equivocadamente de sua personalidade.

Perdido em um labirinto - sonhos da realidade - nada é tão ruim com as pessoas diferentes donas do mesmo gosto.

Se há algo queimando no ar, podemos nos olhar e crer que é o fogo que nos fez  mover. O meu e o seu: sangue.

Longe agora. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Muito para sentir

A mão toca os ombros e desce devagar até a parte superior do braço. Um leve aperto na pele. Os olhos se levantam e encontram um rosto com traços finos, não tão difíceis de notar frente à maquiagem carregada de halloween. Um instante depois não há dificuldade alguma: o sorriso que acompanha os olhos vívidos tomam a frente de qualquer fantasia e o mundo se fecha nesse pequeno inesperado foco de vida.


As palavras do momento são qualquer coisa, desimportantes. É uma festa, uma festa como outra qualquer; as pessoas se enganam, buscam isso com vontades mais fortes do que para realizações de longo prazo. É normal; você fala besteiras,  eu respondo com mais besteiras. Na esperança de desfazer quaisquer embaraços, seguimos um para cada canto dentro do ambiente com poucas luzes. Todxs sabem como é isso.

São minutos que separa um outro momento em que eles se cruzam no corredor e ela olha com insistência aos seus olhos enquanto passa. Um breve sorriso; uma expressão que pede para ser lida, mas que mantém um mistério prolongado. O que pensar, o que fazer em seguida?

A princípio pensou que não fosse nada importante, mas na verdade ficou confuso de imediato: alguns instintos nos tiram do lugar e empurram o corpo para produzir algum movimento. Estava desacostumado a entender com rapidez o que não se espera de uma noite qualquer. Disse a si mesmo poucos dias depois: "Não lembrava-me como era ficar sem graça por causa de um olhar".

A nova conhecida agora tem um nome, mas ela não sabe como o tirou de um lugar onde há tempos queria apenas ter a certeza que poderia sair. Se na festa não houve tempo e possibilidades de acontecer muita coisa, os dias seguintes representaram o que se propôs a chamar de "um pequeno passo".

Para entender o presente, é preciso investigar o passado. Para entender o pequeno passo é preciso expor que dias antes do ocorrido, sonhou - ou interpretou - que estava de bem com o mundo, que tinha deixado mágoas para trás e que não deveria ficar preso ou preocupado em alimentar o desastre que é estar só há tanto tempo.

Refletiu uma ultima vez antes da leve onda passar e quis dizer à ela, como se tratasse de uma velha amiga: "contigo eu pude comprovar, seus olhos verdes me disseram muito do que eu queria sentir".

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Amarrados aos próprios pés

Tantas horas acordado e preocupado com questões e sensações mínimas de alguma espécie de justiça - e agora quem lava o que? quem falou a primeira palavra agressiva? quem olhou e quem interpretou errado primeiro? - fingindo entender o mundo como uma caixa de consideração que te dá prêmios quando você faz a coisa certa. Vem então uma noite longa, um início de sono sereno e um espasmo no meio da madrugada que te faz ver e escutar o que mais te humilha no mundo: estamos sozinhos num jogo que vai te destruir e corroer cada esperança que resta.

Amarrado em meus próprios pés apenas para aprender que a maioria dos desejos deixados para viver nas proximidades são devaneios insolentes, enganadores, grosseiros, que vão te colocar numa condição inferior. Logo, o mais puro desejo, a maior ambição, o maior orgasmo é a fantasia que te deixa subordinado ao tempo perdido, ao tempo acordado e preocupado com questões e sensações mínimas de alguma espécie de justiça que simplesmente não existe.

Então você perde e encara que está perdido, já que não existe o que ganhar. Mas volta para a cama e toma coragem mais uma vez de manter-se sóbrio, numa luta séria em deixar uma sobra de energia para sempre conseguir esquecer e viver na praticidade da boa convivência com ... pouco importa quem. Estamos atrás do sentimento de conseguir sentir-se bem consigo mesmo, sonhando acordado, ou dormindo, ou correndo, ou trepando com a maior competência entregue divinamente à todas as pessoas que habitam esse chão duro: sermos egoístas e morrer por isso, amarrados aos próprios pés.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Nomadismo estável nas contas imprecisas


Inúmeras contas o dia todo, frações de segundos para decidir, passos contados, minutos contados, cálculos em outras dimensões, você não se dá conta, mas atenta para uns mais do que outros. Por isso é assim: um numero apenas, um modo de conta aprisionado em convenções. Mas quem disse que somos livres nesse julgamento?

São 30 anos e os dias de 30 são estranhos. Ninguém pode afirmar e ninguém poderia duvidar. Logo, resolve colocar uma roupa de 30 e, o corpo torna-se 30, a cabeça é 30, nem menos nem mais - é preciso entregar-se - nas sensações confusas com os passos que não param, mas te levam à uma direção: o mercado no começo da noite do sábado. 

Alguns pães, um molho vermelho, algo salgado e logo vê como a janta de 30 poderia ficar. Um hamburguer vegan chique são 15 reais e não 30 reais. A metade está incorreta, o preço não tá de acordo com míseros anos de industrialização excessiva de uma ideologia parada na prateleira - onde vai estar o veganismo em 30 anos? Não há tempo agora pra refletir, você tem números no relógio, tem números na sua conta, multiplica, diminui e ao mesmo tempo reage ao impulso da outra forma de levar pra casa aquela coisa escura dentro de uma embalagem com vácuo. Dá-se conta que não há números suficientes para segurar nossa liberdade. Há uma luz que chama atrás dessas câmeras que fazem o ambiente tão matematicamente perfeito para os patrões. Mas os 30 e a melhor roupa do guarda roupa não te livram dos seguranças te olhando de canto, seguindo pela loja, apertando o ramal 03 no rádio preso ao pulso por um cordão de 30 centímetros. Um homem de bigode, um sapato gasto e visivelmente folgado, as pernas finas numa calça jeans desbotada e as regras e a obediência expressas sem variações duvidosas, os olhos sem titubear na crença do que lhe faz sentido: o trabalho e a moral. 

No fim, a idade não importa tanto, desde criança queremos sentido na vida, um brinquedo de plástico ou madeira, algo que faça barulho, algo que nos dê movimentos, qualquer coisa que preencha nosso mundo. Nos tornamos aquilo que o mundo faz. Crescer é dar novos passos e ter novas visões. Achar sentido nas coisas torna-se algo mais complexo. Um mecanismo estatístico de complexidade na busca de um sentido para estar conformado na vivência: a ausência é calculada, é imposta pelas compras, o consumo como saída imediata, o espelho como aparência, a superficialidade, a enganação consentida, novos dogmas, novo andar, preencher o tempo com novas manias; qualquer coisa que não nos permita viver sem sentido, pois aqui reside a dor.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Não é só pela pobreza

É melhor não enumerar, nem pensar em uma lista ou relatar com precisão o que os ventos trazem. Você vai, vai para frente, não olha para trás, tropeça; mas enxuga as lágrimas que se misturam ao sangue das pernas. 

Talvez mais uma distração, talvez um pouco mais do mesmo, um sentimento de repetição infinito que incrivelmente se conecta às esperanças. Indefinidas esperanças, indefinida dose de não saber o que é que deve-se esperar, mas espera; e procura em pequenos traços de conforto o que a mente já produziu algum dia. 


E então fui ler suas ultimas palavras; tu é o abraço favorito, a risada mais escandalosa, as piadas mais preciosas, o sarcasmo mais ácido, a saudade maior ... ou apenas a minha guerra interna de não saber respeitar as partidas? Já não sei; não é solidez, tampouco é ausência ... Até eu ver que fazem já quatro meses que espero o resultado de suas ultimas linhas.

Em oposto, o passo foi para o lado. Nem pra frente, nem pra trás. São lados. Para uns, é mais fácil decidir, é mais fácil deixar morrer e partir. Pouca coisa nesse mundo é sentida da mesma forma. E é verdade, a leveza se dispersa.


Não é só pela pobreza ou desespero. 
É com carinho que lembro de ti, Teresa.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Desencanto

Não há muito o que se pensar de sensações que confundem o resultado final. Você não está mais aqui, eu não tenho a mínima vontade de voltar onde estava há pouco, mas... o que foi tudo isso? E porque algumas coisas não se vão?

Não há razões em insistir em perguntas, conhecer e desencontrar-se é um ciclo comum em vida. É incontrolável que os momentos de encontro acabem, mas há uma dificuldade de compreensão quando não há tempo de lidar com a velocidade, intensidade e o peso das coisas. As projeções rodeiam não somente planos viáveis e práticos de futuro próximo, mas também mexem com projeções do que poderíamos ser e deixaríamos de ser.

Não há respostas além do desencanto. É a perda e não a chegada de um novo momento que nos deixa preso. Pode-se visualizar um limbo sem esperanças, mas ao mesmo tempo, apostar em novas sensações. Novos desencantos. "Não é surpresa o produto não cumprir a promessa, pois a vida é assim mesmo e todos nós estamos acostumados ao que é falso."
 


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alguma coisa que persiste




- O que há para se entender desses dias tão lotados? do "futuro que já não tem futuro", da deserção das linhas desenhadas para uma vida?
- Entenda que há alguma coisa que persiste.
- Do que você fala?
- Falo de um rastro de pólvora que liga o que em cada evento não se deixa disciplinar.
- Onde vamos com isso tudo?
- Todo mundo sabe. É aceito com um ar pesado ou orgulhoso. Tudo isso vai explodir.
- A guerra está dada faz um tempo, não? Esses dias significam a aceitação de que não há bandeira branca leve o suficiente para nossas mãos, não acha?
- Certo. E não é mais tempo para prever desmoronamentos nem para demonstrar felizes possibilidades. Que venham cedo ou tarde, é necessário se preparar.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um

A percepção do meu próprio desinteresse e de que posso deixar de desejar-te a cada segundo, como acontece incessantemente nas ultimas estações, não é sobre olhar para ti com ódio ou amargura, não é sobre menosprezo ou de que a importância se foi; mas é de olhar a vida e a esperança de amor de outra forma. Uma que inclua a retomada dos poderes de decisões e a retomada da construção das possibilidades.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Não dessa vez

Nem dessa e talvez nunca. Não há o que entender quando tudo está em outro e a distância é/foi de quilômetros nas vontades. Tem um limite quando agimos de forma a criar caminhos separados com alguém. "Ei, eu te empurrei para aquele lado e eu vim por esse, mas eu sei o que você passou". Não. Não faz sentido e não faz bem dizer que sabe, que compreende, que viu, que já passou pelo mesmo. Você não vai entender o que fez se a direção foi o silenciamento e o desempoderamento de sentir-se vivo para o outro. Sim, nós todos cometemos erros e má decisões nos destroem depois de um tempo; mas se ignoramos alguém de forma tão direta, independente do que tenha havido, voltar e dizer que entende tudo te faz uma pessoa pior, pois se entendesse, teria agido de outra forma, simplesmente. E se não agiu, nem ao reencontro, não faz bem aos ouvidos de quem escuta e não lhe dá créditos.

Porque nos acostumamos à essa besteira de agradar inventando o que não sabemos? Esse sentimento de pertencimento e de proximidade pode ser o inverso do que se propõe.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Assim é.



A continuação na insistência do controle e do encaixe das peças poderia lhe agradar, se estivesse em posição de aceitar pequenos luxos. Ainda assim ele não se tornaria razoável e cometeria intencionalmente alguma inconveniência, apenas por ingratidão.

Assim é o tempo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Janela

Um dia acordou 40 minutos antes do despertador, abriu a janela e sentiu um vento gelado batendo no peito. Fechou os olhos e sentiu o pulso cair num ritmo descompassado e silencioso. Foi nesse momento onde percebeu claramente que ninguém poderia compreender a dor que passou. E compreender o que? Compreender pra que? As dezenas de meses em que deitou-se com a cabeça e o coração todo nela e a alma vazia, tornavam impossível que houvesse outra constatação, senão essa. Pensou que se alguém duvidasse ou ela duvidasse, não que a dúvida fora do universo importasse, teria uma resposta pronta: O vento frio estaria impedido pelo vidro e o seu rosto adormecido em seu peito, por apenas mais uma noite, destituiria a insônia. A janela fechada asfixia, mas a janela aberta só recebe a dor.

30/11/2012

terça-feira, 21 de maio de 2013

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A maneira com que me relaciono com qualquer linha constante que supostamente deva ser traçada para a continuidade do ser é esquecendo-as no meio do caminho. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sobre o perdão


O perdão deve levar os esforços e o tratamento direto ao ponto onde o erro trouxe a fatalidade. O corte produzido pelo erro, ofensa, ressentimento, diferenças ou fracasso, vai ocasionar novas ações e novos desdobramentos. Essa nova série de desentendimentos e mudanças geradas pelo ponto da fatalidade é parte do que se busca superar pelo perdão. O ato de perdoar se tornará completo apenas quando toda a cadeia dos acontecimentos for superada, deixando a mesma atmosfera, vigor e comportamentos no ponto anterior ao corte. Esse esquecimento completo e absoluto se materializará na continuidade e desenvolvimento dos fatos vividos ao ponto antecessor da fusão.  

Entende-se com isso, os porquês do perdão não encontrar significados reais nas palavras, mas sim nas ações. As palavras de perdão podem carregar significados dispersos que não conduzem à superação do problema. A respeito disso, devemos destacar a configuração enraizada no pensamento cristão ocidental, onde o estímulo exacerbado ao perdão é amplamente difundido. A situação de pressão social incentiva o uso de palavras que podem satisfazer essa moral, mas não cura o que, de fato, se propõe. Ou seja, pode direcionar à um vício, onde o ato se coloca como necessário aos praticantes, independentemente do que se tenha ocorrido. Obviamente, um perdão sem entendimento da carga transportada consigo, fará com que novas consequências negativas, com a chance de se mostrarem mais aprofundadas no corte fatal inicial, surjam e desboquem na ambivalência da proximidade física e edificação do inferno, tanto pessoal, ao se ver vivendo preso em suas próprias mágoas não resolvidas, como direcionado ao próximo, submetendo-o a constantes agressões, as quais, podem ser construídas inconscientemente, mas que resultarão em processos racionais, que tomam conta  do labor da reflexão: os pensamentos incessantes sobre as consequencias, as reações, as projeções, os desfechos, entre outros. Esses fatores levados ao extremo pelo pensamento paralisam ações, visto que o desequilíbrio gerado já está deslocado da direção onde se encontra o erro ou o corte fatal, imerso nas consequencias geradas pelo não entendimento do que se está a perdoar e não aponta para a superação.

Entender o que se procura perdoar se torna fundamental para que o ato se torne real.  O entendimento e a percepção de que essa busca trará um fim benéfico, tanto para quem perdoa, como para o perdoado, ou para os sujeitos que se encontram em ambas as posições, precisa ser visualizado de forma clara. É nesse ponto onde se inserem as perspectivas do destino, pois em muitos casos será preciso construir conjuntamente o perdão, considerando seu objetivo de deixar as portas abertas às futuras vivências, que devem caminhar separadas do ponto fatal passado. Logo, o ato de perdoar será uma tentativa de viver um futuro não traumático em que os envolvidos se sintam compensados pelo esforço do perdão. É com as compensações que se constrói um futuro. Se um objeto importante é quebrado ou extraviado, o compensar se dá em torno da reposição em medidas de igual valor. O mesmo se dá com relações afetivas, onde a moeda de troca se constitui valores como fidelidade, dedicação, prazer, alegria, conforto e proteção. Se não há valores envolvidos, a importância foi perdida em algum lugar do passado. Logo, a compensação não será sentida e vivida, o que tomará por força o sentido da reconciliação e as perspectivas se farão ausentes. Essa é a grande diferença de um perdão por afetos e por danos materiais. As pessoas necessitam de perspectivas que lhe dêem sentidos concretos para continuar no esforço e na construção, enquanto um dano material pode ser reposto imediatamente. Por isso, considerar os benefícios na reconciliação, somente em partes, tratando de pontos que não envolvem o conjunto dos desencadeamentos, ou ainda somente atentando aos pontos que dizem respeito à si próprio, não dará chances para a reconstituição e possíveis melhorias. Mais uma vez, é preciso lembrar que não se perdoa por se perdoar, ou seja, não se faz disso um acordo banal baseado na moral cristã, quando, de fato, a necessidade sincera sentida no interior e refletida nas ações, comportamentos e ações externas, é a motriz dessa busca. Se os fatos são relevantes, a busca deve ser séria na superação dos problemas. Perdoar significa doar-se de todo coração. O perdão é estar livre de amarras, é estar pronto a tentar novamente.