quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alguma coisa que persiste




- O que há para se entender desses dias tão lotados? do "futuro que já não tem futuro", da deserção das linhas desenhadas para uma vida?
- Entenda que há alguma coisa que persiste.
- Do que você fala?
- Falo de um rastro de pólvora que liga o que em cada evento não se deixa disciplinar.
- Onde vamos com isso tudo?
- Todo mundo sabe. É aceito com um ar pesado ou orgulhoso. Tudo isso vai explodir.
- A guerra está dada faz um tempo, não? Esses dias significam a aceitação de que não há bandeira branca leve o suficiente para nossas mãos, não acha?
- Certo. E não é mais tempo para prever desmoronamentos nem para demonstrar felizes possibilidades. Que venham cedo ou tarde, é necessário se preparar.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um

A percepção do meu próprio desinteresse e de que posso deixar de desejar-te a cada segundo, como acontece incessantemente nas ultimas estações, não é sobre olhar para ti com ódio ou amargura, não é sobre menosprezo ou de que a importância se foi; mas é de olhar a vida e a esperança de amor de outra forma. Uma que inclua a retomada dos poderes de decisões e a retomada da construção das possibilidades.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Não dessa vez

Nem dessa e talvez nunca. Não há o que entender quando tudo está em outro e a distância é/foi de quilômetros nas vontades. Tem um limite quando agimos de forma a criar caminhos separados com alguém. "Ei, eu te empurrei para aquele lado e eu vim por esse, mas eu sei o que você passou". Não. Não faz sentido e não faz bem dizer que sabe, que compreende, que viu, que já passou pelo mesmo. Você não vai entender o que fez se a direção foi o silenciamento e o desempoderamento de sentir-se vivo para o outro. Sim, nós todos cometemos erros e má decisões nos destroem depois de um tempo; mas se ignoramos alguém de forma tão direta, independente do que tenha havido, voltar e dizer que entende tudo te faz uma pessoa pior, pois se entendesse, teria agido de outra forma, simplesmente. E se não agiu, nem ao reencontro, não faz bem aos ouvidos de quem escuta e não lhe dá créditos.

Porque nos acostumamos à essa besteira de agradar inventando o que não sabemos? Esse sentimento de pertencimento e de proximidade pode ser o inverso do que se propõe.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Assim é.



A continuação na insistência do controle e do encaixe das peças poderia lhe agradar, se estivesse em posição de aceitar pequenos luxos. Ainda assim ele não se tornaria razoável e cometeria intencionalmente alguma inconveniência, apenas por ingratidão.

Assim é o tempo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Janela

Um dia acordou 40 minutos antes do despertador, abriu a janela e sentiu um vento gelado batendo no peito. Fechou os olhos e sentiu o pulso cair num ritmo descompassado e silencioso. Foi nesse momento onde percebeu claramente que ninguém poderia compreender a dor que passou. E compreender o que? Compreender pra que? As dezenas de meses em que deitou-se com a cabeça e o coração todo nela e a alma vazia, tornavam impossível que houvesse outra constatação, senão essa. Pensou que se alguém duvidasse ou ela duvidasse, não que a dúvida fora do universo importasse, teria uma resposta pronta: O vento frio estaria impedido pelo vidro e o seu rosto adormecido em seu peito, por apenas mais uma noite, destituiria a insônia. A janela fechada asfixia, mas a janela aberta só recebe a dor.

30/11/2012

terça-feira, 21 de maio de 2013

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A maneira com que me relaciono com qualquer linha constante que supostamente deva ser traçada para a continuidade do ser é esquecendo-as no meio do caminho. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sobre o perdão


O perdão deve levar os esforços e o tratamento direto ao ponto onde o erro trouxe a fatalidade. O corte produzido pelo erro, ofensa, ressentimento, diferenças ou fracasso, vai ocasionar novas ações e novos desdobramentos. Essa nova série de desentendimentos e mudanças geradas pelo ponto da fatalidade é parte do que se busca superar pelo perdão. O ato de perdoar se tornará completo apenas quando toda a cadeia dos acontecimentos for superada, deixando a mesma atmosfera, vigor e comportamentos no ponto anterior ao corte. Esse esquecimento completo e absoluto se materializará na continuidade e desenvolvimento dos fatos vividos ao ponto antecessor da fusão.  

Entende-se com isso, os porquês do perdão não encontrar significados reais nas palavras, mas sim nas ações. As palavras de perdão podem carregar significados dispersos que não conduzem à superação do problema. A respeito disso, devemos destacar a configuração enraizada no pensamento cristão ocidental, onde o estímulo exacerbado ao perdão é amplamente difundido. A situação de pressão social incentiva o uso de palavras que podem satisfazer essa moral, mas não cura o que, de fato, se propõe. Ou seja, pode direcionar à um vício, onde o ato se coloca como necessário aos praticantes, independentemente do que se tenha ocorrido. Obviamente, um perdão sem entendimento da carga transportada consigo, fará com que novas consequências negativas, com a chance de se mostrarem mais aprofundadas no corte fatal inicial, surjam e desboquem na ambivalência da proximidade física e edificação do inferno, tanto pessoal, ao se ver vivendo preso em suas próprias mágoas não resolvidas, como direcionado ao próximo, submetendo-o a constantes agressões, as quais, podem ser construídas inconscientemente, mas que resultarão em processos racionais, que tomam conta  do labor da reflexão: os pensamentos incessantes sobre as consequencias, as reações, as projeções, os desfechos, entre outros. Esses fatores levados ao extremo pelo pensamento paralisam ações, visto que o desequilíbrio gerado já está deslocado da direção onde se encontra o erro ou o corte fatal, imerso nas consequencias geradas pelo não entendimento do que se está a perdoar e não aponta para a superação.

Entender o que se procura perdoar se torna fundamental para que o ato se torne real.  O entendimento e a percepção de que essa busca trará um fim benéfico, tanto para quem perdoa, como para o perdoado, ou para os sujeitos que se encontram em ambas as posições, precisa ser visualizado de forma clara. É nesse ponto onde se inserem as perspectivas do destino, pois em muitos casos será preciso construir conjuntamente o perdão, considerando seu objetivo de deixar as portas abertas às futuras vivências, que devem caminhar separadas do ponto fatal passado. Logo, o ato de perdoar será uma tentativa de viver um futuro não traumático em que os envolvidos se sintam compensados pelo esforço do perdão. É com as compensações que se constrói um futuro. Se um objeto importante é quebrado ou extraviado, o compensar se dá em torno da reposição em medidas de igual valor. O mesmo se dá com relações afetivas, onde a moeda de troca se constitui valores como fidelidade, dedicação, prazer, alegria, conforto e proteção. Se não há valores envolvidos, a importância foi perdida em algum lugar do passado. Logo, a compensação não será sentida e vivida, o que tomará por força o sentido da reconciliação e as perspectivas se farão ausentes. Essa é a grande diferença de um perdão por afetos e por danos materiais. As pessoas necessitam de perspectivas que lhe dêem sentidos concretos para continuar no esforço e na construção, enquanto um dano material pode ser reposto imediatamente. Por isso, considerar os benefícios na reconciliação, somente em partes, tratando de pontos que não envolvem o conjunto dos desencadeamentos, ou ainda somente atentando aos pontos que dizem respeito à si próprio, não dará chances para a reconstituição e possíveis melhorias. Mais uma vez, é preciso lembrar que não se perdoa por se perdoar, ou seja, não se faz disso um acordo banal baseado na moral cristã, quando, de fato, a necessidade sincera sentida no interior e refletida nas ações, comportamentos e ações externas, é a motriz dessa busca. Se os fatos são relevantes, a busca deve ser séria na superação dos problemas. Perdoar significa doar-se de todo coração. O perdão é estar livre de amarras, é estar pronto a tentar novamente.

domingo, 20 de maio de 2012

Quando se tem apenas uma vida

De repente - ou quase como um conto infantil - num belo dia começou a dar uma certa importância a um fato que tinha passado desapercebido em todas as vezes que se pegava pensando na situação em que deixou cair sua vida. Não soubera dizer até o momento qual seria a intensidade em que deixaria isso fazer parte de seus pensamentos, mas pensou que era um viés que ainda não tinha reclamado e achou que teria algum proveito. No fundo, já sabia de antemão que pensar em ramificações de problemas passados, por mais diferentes que fossem dos ângulos já vistos e revisitados insistentemente, não afetaria o que achou por bem defender: o seu presente. Mas também sabia que, indesejado que fosse, não conseguiria livrar-se dos pensamentos e das horas de angustias apenas desejando; teria que enfrentar aquilo. A consciência dizia essa frase de forma clara e objetiva, era uma parte do seu ser se impondo ao todo, exigindo o respeito devido.


Quando percebeu a clareza do enfrentamento porvir e da tomada de posição evidentemente necessária, esqueceu-se por um momento de como dialogava com o seu amor (ou a figuração mais longa em todos os anos) e pensou nas relações de amizades. Como dialogava com todos e todas? Percebeu que muito tempo viveu apaixonado pela ideia de ser feliz, pelo mito da busca da felicidade. Sabia bem que construir era a solução, não buscar, ou procurar. Desde sua adolescência procurava incorporar linguagens que o apoiassem como dono do destino, como o ser verdadeiramente construtor do caminho que traçaria. Percebia a importância da linguagem nas ideias quando terminou de ler "Deus e o Estado", de Bakunin. Mas voltando a pergunta, somente pôde levantar algumas hipóteses preocupantes. A possibilidade de 'ser feliz' o fez automaticamente abandonar preocupações de como as pessoas o olhavam, de como enxergavam suas limitações, suas manias e seus constrangimentos. Foi por um tempo o mais natural que o termo permite ser, apenas viveu cuidando da preocupação da tal felicidade. Mas agora que ela foi embora, os olhares voltavam com um tom muito mais pesado do que já esteve um dia acostumado. Isso o perturbou, mas de uma maneira positiva. Pensou que poderia ainda usar o verbo construir para recuperar a confiança em si mesmo e assim mostrar claramente para alguns próximos - alguns que perderam o encantamento por ele, talvez com razão, pois o que se via nesse personagem era sua perdição, seus altos e baixos no meio de uma trama obscura - que a fortaleza se refaz, sem problemas.

Mas não pensava em outra coisa, não ousava deixar de lado essa ideia que chegou subitamente. A marcha para salvar as florestas passava enquanto mantinha o livro em mãos, erguendo os olhares algumas vezes para os transeuntes ou quando as falas se exaltavam no megafone. Ao ver os cartazes, com o raciocínio veloz, pensou: pedem a uma presidenta de forma pacífica, a chefe de Estado de um órgão não pacífico, sobre uma questão que nunca foi pacífica para o homem civilizado: a propriedade da terra. Mas votam de forma pacífica, caminham de forma pacífica, aceitarão de forma pacífica o que acontecer. Os sons começavam a se confundir e a leitura começava a ficar distante. A marcha de Jesus, ao fundo, concentrava duzentas vezes mais pessoas. Não se conformava com a disparidade e só conseguiu acalmar-se lembrando de métodos teóricos que explicam o passado e a formação do pensamento presente. Dessa forma, pôde ao menos respirar desobstruído de tamanha antipatia e irritação com as ações populares da manhã. Era disso que precisava, métodos que sirvam para o presente, mesmo que remexam nas coisas sensíveis desse passado que tem como ingrato.

Estamos falando dos acasos. Era isso que pensava. Quais foram os acasos que os fizeram se encontrar, se conhecerem, se amarem e se separarem? Sabia que existiam muitos. Também sabia que esse modelo simples repetitivo de encontro, vivência e distanciamento, fazia parte da não declarada frieza de um estranho, porém seguiria essa linha de raciocínio para não voltar a usar métodos que o enlouquecera por terem sido usados com ansiedade extrema. Pensava nessa possibilidade por se encontrar num dia em que conseguia perceber no seu andar passos lentos e sem nenhuma pressa de observar os arredores, coisas simples que não apreciava há algumas semanas. Mas alguns acasos eram tão insignificantes que tentou deixar de lado, tentou escondê-los do seu raciocínio por medo de perder a oportunidade futura de dizer à seus filhos ou netos: "Uma vez eu tive uma companheira, nos encontramos por motivos belos e, saibam que esse é o melhor sentimento que um homem pode ter. Vocês devem buscar um dia a vivência do companheirismo, entender verdadeiramente o que essa palavra significa". Outros eram quase acasos previsíveis. Em certas épocas, e isso só soube tempos depois, não prestou atenção suficiente em sua amada e deixou de ser o construtor da aliança. As alianças não são círculos perfeitos, elas possuem sempre um vão e, mesmo microscópico, ele pode se expandir rapidamente, basta um deslize, algo que crie uma visão estranha do todo ou ainda um simples acaso. Os acasos não vão lhe explicar muita coisa, além de deixar dúvidas em como a vida poderia ser hoje, ou como poderia ter sido. Talvez perderá algum tempo, eu suponho que será pouco, pois tem claramente para si que existe apenas uma vida e de nada adianta pensar no "se". A história não ensina usar esse termo, pois não há duas vidas, não existem duas possibilidades. Ninguém pode saber a força de suas escolhas quando se tem apenas uma vida para viver. Não existe o campo do teste e o campo da realidade. O que é escolhido, foi escolhido. O que aconteceu é o que aconteceu.

Por fim, fechou o livro e caminhou, tomando um caminho mais longo de volta para casa. A escolha era um acaso, mas um acaso que buscava esperança em algo que não pode ainda imaginar.